domingo, 13 de maio de 2012

A ceia do imaginário

Havia luz e uma janela suficientemente ampla permitia algum devaneio; algum prodígio que em órbita colocasse a tarde e todos os sentidos que te acarinhavam fartos e todos os sabores que te lambiam a vulva.
Havia luz o bastante para afetar-me a visão com os caprichosos contornos do seu corpo enfermiço, havia fixação na prontidão física que a mantinha casta, puta abandonada em plena ceia, delicada cria sem redenção.

Tela: "Menino mau" de Eric  Fischl

domingo, 6 de maio de 2012

PARSIFAL 84

Ouçam de Santana um oitenta e quatro arpejado num clássico de canhoto faminto; 
Xangô gregoriano auscultado nas fábulas do bares.
Ouçam o latido do cão danado que em silêncio ateia fogo ao colosso de Orwell e nas magias do municipal vigiado a cada drama.
Ouçam todos os detalhes de sua composição sonoro-arquitetônica, que vibra em todos os nomes da face do homem que Wagner chamou Parsifal.
Ouçam o capanga da arte que se move magro entre árvores de sombras desmaiadas,
por entre descendências bêbadas que conspiram versos e sons, enquanto o instinto espia o silêncio.
Ouçam de Santana as óperas imaginadas e tão docemente irradiadas pelos olhos do
cão amigo
Xangô
Parsifal.

Tela de Jean Delville: "Parsifal"

domingo, 29 de abril de 2012

Você ainda fuma seu primeiro cigarro logo ao acordar?

Puxo as cortinas como sempre e como sempre revisito palmo a palmo o plano emoldurado da janela. Abro-me para as cores repetidas de outro dia tão igual, tão calorento quanto qualquer outro que eu tenha vivido por dentro, por entre todos os vazios malcheirosos de seus mortos incontáveis, rente à falta de habilidade daqueles que me esbarram desconhecidos, mas que se comovem caso não consiga espiar pela moldura mais uma fresca sensação de dia seguinte, recomeço zumbido nos sons de um sempre matinal entre preguiças e saudades. Volvo para um mar de levezas que garoam e coo o café que me acorda para outras visões; são calmarias que acalanto sozinha sentada a um dos banquinhos da cozinha e que devoro depois. Também me derramo no banho e transpiro tantos planos consiga até me arrepender pela demora; não me culpo muito tempo, mas o suficiente. Nem se trata de uma dor aos domingos ou em plena segunda-feira de sol derretido por todos os poros, nem de espezinhar o resto dos dias da semana como baganas que degustei no escuro e depois apaguei descuidada. Não se trata mesmo de acordar com os pulsos cortados e constatar que lá fora as pessoas continuam sorrindo maquinais e que eu também lhes sorrio como que arrependida e sem tempo, como se não tivesse notícias de quem um dia puxou as cortinas como sempre e como sempre me desejou bom dia.

domingo, 22 de abril de 2012

A tempestade (III)

O encontro
 
Aquilo que se entreabriu viu 
em meio ao cinza das pinceladas qualquer coisa sorrindo para si, dizendo dos lilases
contidos
ainda por surgir daquele emaranhado de sobressaltos e esbarrões, chiaroscuro de corpos num espaço de trovões. Abriu-se do sonho gerânio desavisado transeunte inesperado em meio ao torvelinho de fadas e divas; abriu-se mais que acordado na esperança paleácea de que seus passos outra vez pisassem o corredor frio e fechasse as janelas antes da tempestade. Poderia virar-se tranquilo e deixar que lá fora tudo marulhasse convulso, pois ela já estaria aconchegada e nele a pele pérola nua vibraria dilúvios próprios da vida.

Foto: Piotr Kowalik

...e quem sabe, a calhar.

domingo, 15 de abril de 2012

A tempestade (II)

Redenção
O fundo se esquivaria em cores lívidas e de lá se poderia ouvir um bolero setentista que fizesse recomeçar tudo outra vez através das falas comuns, daqueles olhares angustiados trocados antes que escurecesse e dissesses até logo, o mundo vai desabar e aqui nem existe mais.
Prometeria pincelar com cores vivas os becos por onde desapareceste e pintaria sorrisos e flashes que a trouxessem impressa em cada parede sombreada de sóis recentes sem mundos que te enlaçassem pela cintura, pois nossa dança seria um duo chiaroscuro rodopiando sem pressa trazendo-a para o olho do furacão caleidoscópico que abriríamos a cada regozijo expresso pela tempestade dos nossos corpos.     

Foto: Piotr Kowalik
(http://www.piotrkowalik.co.uk/)

..e por favor, ouçam esta canção
"Trovoa" de Maurício Pereira


domingo, 1 de abril de 2012

A tempestade

Talvez eu voltasse àquele ponto exato da conversa e você me interrompesse apontando o horizonte chumbado àquilo tão bem definido como fim de mundo e eu insistisse que se danasse a tempestade e pedisse outra cerveja e você mais uma vez retornasse para dentro de uma confusão futura prevendo ruas alagadas e fizesse menção de chamar um taxi que se deslocasse o mais rápido possível para os lados de um mundo a salvo.
Talvez.
Talvez não fizesse mesmo sentido acordar todas as manhãs, olhar-se entristecido ainda e procurar um rosto no espelho que se parecesse um pouco comigo e só então avisar que já estou indo buscar o pão e que talvez eu passe na banca e pergunte se o seu fascículo já chegou e que também posso olhar o céu pelo tempo que for preciso e descobrir que um dia entre uma cerveja e outra você resolva fugir da chuva deixando-me só com dois copos no balcão.
Talvez eu lhe pegasse pela mão, mas não tão firme que a mantivesse perto de mim e outra vez olhasse o castanho dos seus olhos como quem olha a própria vida se afastando e se afastando talvez você descobrisse que a salvo de mim toda vez que abro os olhos de manhã desejando-lhe boa sorte e que a trago nos bilhetes rotos que talvez eu tenha que salvar das águas já que me decidi pelo horizonte chumbado àquilo que imagino como sendo a tempestade.

Foto: Sean Heavey

quarta-feira, 28 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

Nascer velho e morrer criança

"[...] Com oitenta anos nasceria rico, sábio e aposentado! [...] Mas a vida, então, teria que ser recriada, o mundo teria que regredir séculos! Cabral e Colombo "desdescobririam" o Novo Mundo, o homem "desinventaria" a roda, atingiria o desconhecimento da pólvora e do fogo, até chegar a Adão, o último homem. O último-primeiro homem a quem Deus, colocando-o sobre a sua mão, em vez de lhe soprar a vida, o inspiraria novamente para dentro de Si".

Chico Anysio (1931-2012) e Ary Madureira Filho (Marcos César-? - 1987)

A trama da história

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